De volta ao meu apartamento, pendurei o casaco encharcado no cabide e fui direto para a janela. A chuva caía com mais intensidade agora, criando um ritmo hipnótico enquanto batia no vidro. As luzes da cidade refletiam nas poças d'água, dando um toque de magia à paisagem urbana. Sentei-me na poltrona perto da janela e observei o mundo lá fora, tentando organizar meus pensamentos.
A voz que ouvira mais cedo ainda ecoava na minha mente, insistente e clara. "Você tem um propósito!" Mas o que aquilo realmente significava? Precisava de respostas e sentia que não as encontraria sozinho.
Meu telefone tocou, tirando-me dos meus devaneios. Era Mariana, minha melhor amiga desde a infância. Ela sempre soube quando eu precisava de alguém, mesmo sem que eu dissesse nada.
— Oi, Mari. — Atendi, tentando disfarçar a confusão na minha voz.
— Oi! Você sumiu do restaurante, está tudo bem? — Ela perguntou, preocupada.
— Estou bem, só precisava de um tempo para pensar. — Respondi, sabendo que ela não se contentaria com essa resposta superficial.
— Quero te ver. Vamos tomar um café? — Ela sugeriu.
Aceitei de imediato. Precisava falar com alguém, e Mari sempre tinha um jeito de me ajudar a enxergar as coisas de uma perspectiva diferente. Coloquei uma roupa seca e, em poucos minutos, estava no café que costumávamos frequentar.
Mariana já estava lá, sentada em uma mesa no canto, com duas xícaras de café fumegante. Seus olhos brilhavam com aquela curiosidade característica.
— Conta tudo. — Ela disse, sem rodeios.
Respirei fundo e comecei a narrar os eventos do dia, desde o restaurante até a voz misteriosa e a caminhada pela chuva. Mariana ouviu atentamente, sem interromper, apenas acenando de vez em quando para mostrar que estava acompanhando.
— Você acha que estou ficando louco? — Perguntei, meio sério, meio brincando.
— Claro que não! — Ela riu. — Às vezes, nosso subconsciente encontra formas estranhas de nos comunicar coisas importantes. Talvez essa voz seja uma parte de você tentando dizer algo.
Ficamos em silêncio por um momento, saboreando o café e as palavras de Mari. Eu sabia que ela tinha razão. A voz era, de alguma forma, uma manifestação do meu próprio desejo de encontrar um propósito, de fazer algo significativo com minha vida.
— Mas como descobrir o que é? — Perguntei, ainda sem saber por onde começar.
— Que tal começar fazendo uma lista de coisas que você gosta de fazer? Coisas que te trazem alegria e satisfação. — Sugeriu Mariana. — Pode parecer simples, mas às vezes esquecemos do que realmente nos faz felizes.
A ideia parecia boa. Peguei meu caderno e comecei a escrever. Mariana, sempre prática, tirou uma caneta da bolsa e começou a me ajudar.
Passamos a próxima hora listando hobbies, paixões e sonhos que eu havia deixado de lado ao longo dos anos. Desde a fotografia, que eu sempre adorei, até a vontade de aprender a tocar violão. A cada item adicionado à lista, sentia-me mais leve, como se estivesse redescobrindo partes de mim mesmo que haviam sido esquecidas.
— Sabe, acho que seu propósito pode estar em algo que você já ama, mas não percebeu ainda. — Disse Mariana, enquanto terminávamos a lista.
Saí do café com uma sensação renovada de esperança. Ainda não tinha todas as respostas, mas agora tinha um ponto de partida. E, com a ajuda de Mari, estava pronto para explorar cada possibilidade.
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